17 outubro, 2008

One Night Stand

Há alturas na nossa vida afectiva em que somos capazes de nos comportar como autênticos refugiados, e por isso abrigamo-nos no beijo de quem estiver mais próximo, e escondemo-nos nos lençóis que se nos apresentam mais confortáveis.

Somos capazes de nos comportar como autênticas prostitutas de sentimentos, e de vendermos o amor que sentimos por um pouco de atenção... por um beijo fácil... por uma noite descomprometida... por um amanhecer a dois seguido de... nada...

Não temos medo, nem vergonha de nada, e sentimos que podemos amar à vontade, porque este tipo de relacionamentos não passam da alvorada.

Somos estúpidos... hipócritas... egoístas... e egocêntricos atordoados por delírios esculpidos no meio de dois corpos unidos pelo acaso, que depois se despem um do outro sem se despedirem...

It's always and only a one night stand...

23 setembro, 2008

A caixinha que mudou o mundo, não foi a televisão, meus amigos. Foi uma caixinha espevitada de comprimidos azuis, e que diz na embalagem Viagra.
Nunca tive muito contacto com medicamentos, ainda que qualquer infância não seja infância sem brincar aos médicos. Curiosamente atraio imensa gente hipocondríaca. Será que vêem em mim a continuação dos problemas, ou a salvação?

Vamos lá a ver... não é vergonha nenhuma tomar Viagra. Pelo contrário. Felizes os que têm posses, e (à) vontade para o comprar. Para mim é que foi a primeira vez que estive com alguém que o fazia, e fiquei com uma ligeira taquicardia mesmo sem os tomar, e foram milhares as perguntas em atropelo que me surgiram na cabeça...

- Será que um homem se sente ofendido se uma mulher em pleno acto gritar... Viagraaaaaa? Será traição?
- Uma mulher deve oferecer-se para ir buscar os comprimidos com um copinho de água, ou devemos ignorar que ele os toma, para não o ofender?
- E andar com uma caixinha suplente na carteira será de mau tom?

Que fique bem claro que sou capaz de gostar de um homem que tome Viagra, porque isso apenas significará que ele é capaz de fazer das suas fraquezas o seu forte.

05 julho, 2008

Uns pés lindos

Tirei do armário meia dúzia de peças de roupa e dois pares de sapatos, para a viagem que ia fazer. Deixei o carro em casa e fui apanhar o pendular. Sentei-me em primeira classe, e prevendo que o sono iria chegar, resolvi descalçar-me, e quando estava a esticar as pernas, chegou um homem que se sentou mesmo ao meu lado. Ele tinha um ar tão clássico quanto perfumado. Raios! - pensei - e fechei um olhito, deixando o outro entreaberto a vigiar o ambiente. Entretanto adormeci.

Quando acordei, temendo que o fiozinho da baba me tenha traído a figura estudada, resolvi voltar a calçar-me, e enquanto o fazia, ele sorriu e disse-me: "Não devia calçar-se. Tem uns pés lindos!" . Soltei um risinho que não me fez recuar.
"Que número calça?" - eu disse-lhe, o que o fez sorrir.
"Ainda bem que não é demasiado alta" - disse ele simpaticamente.
O que ele devia querer dizer é que sou baixa, e vou bem no número que calço, para não cair dos pés... Este foi precisamente o momento em que pensei que ou me calo para sempre, ou já não lhe dou com os pés.

O comboio chegou a Coimbra, e restava-nos menos de uma hora de convivência. Foi então que lhe resolvi perguntar como se chamava, e perguntar-lhe o que fazia, ao que ele me respondeu, e devolveu as mesmas perguntas, às quais também eu lhe respondi. Entretanto já estávamos em Espinho...
No Porto não tinha ninguém à minha espera, apenas um fim-de-semana de spa, e amigos era o que previa, e era tudo o que me apetecia. A ele deve ter começado a apetecer mais qualquer coisa, porque de repente perguntou-me: "E se viesse jantar comigo hoje?". Só um homem com uma personalidade muito forte teria coragem para fazer um convite assim.
E porque não?... - pensei eu (este é o meu pensamento preferido quando estou receptiva a todas as possibilidades).

Antes de jantar fomos deixar as malas ao hotel, e estava eu no meu quarto a retocar a pintura, quando ele bateu à porta. Vinha aparentemente confiante, entrou no quarto, e sentou-se em cima da cama, de comando de Tv na mão, e começou a fazer zapping enquanto esperava por mim. Entretanto lá saímos em direcção ao restaurante...

À segunda garrafa de vinho comecei a sentir um fracote por ele, e já o meu pensamento estava no acolhedor quarto de hotel, quando ele decide baixar o tom de voz, e falar-me do fracasso do seu terceiro casamento...
"Ó céus!" - pensei - "Queres ver que ele está a pensar no quarto? Mas não é nesse quarto que eu quero que ele pense, é no outro..."
Ele fez questão de pagar o jantar, e eu de o convidar para dançar. Umas amigas minhas punham música num bar, onde os hits dos oitentas não nos chocariam.

Quando lá chegamos, empurrei-lhe um Whisky pela goela abaixo, e uns minutos depois já ele estava pendurado no pescoço das minhas amigas.
Tudo estava a correr bem até ao momento em que ele começou a dançar o "Just like heaven" dos Cure como se fosse o foxtrot!!! Arrasou-me...

Fui emborcar às escondidas uns shots, enquanto ele jingava tudo o que havia nele. "Ai que medo" - pensei. E lá fui eu de sorriso posto bambolear um bocadito com ele. As minhas amigas devem ter notado qualquer desfasamento, porque pouco depois começou a trocar um slow, coisa nunca vista nestes bares. A meio do enrolanço, já qualquer coisa tilintava surdamente nele, e dali ao quarto do hotel, foi só mais um passo...

Quando entrámos no quarto, ele gritou: "Estou tão feliz! Casa comigo".
Eu depois de ter emborcado duas garrafas de vinho, e uns dez shots, já me via de grinalda e cachucho de noivado, e num momento de lucidez pensei:
"Calma, que tu nem sabes se ele tem pêlos no peito. Não te precipites para o abismo..."